Nasci em
Alagoinhas, interior da Bahia, e como qualquer menina que nasce filha de pai irresponsável e mãe
sem juízo, fui adotada pela miséria e o descaso.
Só mais uma.
Aos dez anos foi que a vida virou pesadelo de sono
pesado, daqueles difíceis de acordar.
Ela saiu pela porta da frente e pediu que eu cuidasse dos meus seis
irmãos mais novos. Não disse para onde ia, nem quando voltava. Apenas passou a
chave na porta e saiu caminhando sem olhar para trás. Do buraco da parede dava
para ver, ao longe, seu vestido encardido se encher de vento e agarrar nos
galhos secos e rasteiros.
Abandono.
O dia virou noite e depois, clareou de novo. Sem notícias,
comida e nem água. Meus irmãos a queriam,
pois sabiam que só Ela levaria a dor embora. Aquela dor que se ente quando as
paredes do estômago se colam uma na outra e suas tripas retorcem fazendo a
gente dobrar as pernas, até cair no chão. É, eu também sentia, mas tinha que
ser mais forte do que eles. Eu era a mais velha e estava ali para cuidar.
Choro, desespero, fome.
Um dia alguém passou por ali e ouviu meus gritos, sentiu
pena e levou um pedaço de carne seca com aipim, foi o que nos valeu. A morte,
que já atravessava as paredes sem cerimônia e sussurrava em meus ouvidos,
resolveu nos dar mais um dia. De barriga cheia, a cabeça doía menos. Mas, tinha
que ser de comida, quando comi pedaço de adobe das paredes a dor só aumentou. Adobe
parecia melhor do que nada.
Solidariedade.
O tempo passava arrastado e eu já nem contava mais. Mas,
ainda questionava se era mesmo eu, sozinha, quem cuidava dos meus irmãos. Ou se
era Deus quem cuidava de nós. Quando a vida já escapava pela janela, alguém
bateu na porta trazendo um fio de esperança o qual agarrei desesperadamente.
Perspectiva.
Achei ter reconhecido aquela voz doce, mas não tive
certeza na hora. Esperei que falasse mais um pouco e então identifiquei, era
irmã de meu pai e perguntava por mamãe. Mas como explicar o que nem mesmo eu
entendia? Apenas tomei fôlego e contei a história bem devagar, já que as tonturas
ainda iam e vinham cada vez mais fortes.
Constatação.
“Mainha acordou triste, num dia igual aos outros, e
foi-se embora sozinha sem deixar rastro.”
“Como conseguiram viver por tanto tempo trancados aqui?”
tia perguntou. “Milagre.”, respondi. E
era mesmo verdade, naquele sertão castigado pelo sol e esquecido pela chuva,
piedade alheia é luxo. Tinha um senhor que passava por ali, a caminho da
lavoura de cana, e nos oferecia o que sobrava na marmita do almoço.
Sorte.
“Por que ninguém abriu a porta para tirar vocês daqui?”,
ela queria saber. “Porque eu mentia que mainha voltava todo dia de noite.”,
falei. Na verdade, eu realmente esperava que ela voltasse, todos os dias. Por
isso deveríamos esperar ali, onde fomos deixados. Como ela nos encontraria se
nos levassem?
Porta abaixo.
Ao ver o corpinho no chão, virado para a parede do canto,
tia olhou para mim, desesperada. Ao
perceber sua agonia, eu tentei explicar que o bebê dormia pesado demais. Dois
dias atrás, ele chorava muito alto, parecia que nunca ia parar. Achei mesmo que
ele estava com fome e coloquei um pedaço de macaxeira na sua boquinha. O “bichinho”
até que tentou comer, mas, acho que é nessas horas que faz falta ter dentinhos
para mastigar, né? Por fim, ele desistiu, se calou e caiu num sono de dar
gosto! Quisera eu dormir assim. Acho que até conseguiria, se pelo menos a
barriga parasse de doer...
Morte.
A mesma que assoprava em meus ouvidos e até parecia uma
velha conhecida, bajulava-me para roubar dos meus braços o meu irmãozinho.
Naquele dia descobri o quanto ela pode ser traiçoeira. E descobri também uma
maneira de ignorar seus sussurros.