terça-feira, 28 de maio de 2013

Nudez

Imagem: http://agendacult.wordpress.com/2008/05/21/ultima-semana-da-exposicao-a-alma-grafica-brennand-desenhos-ate-25-de-maio-domingo/

Poesia: Carlos Drummond de Andrade.

Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
Configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
Estrita do que dorme,
Sob placa de estanho, sonho informe,
Um lembrar de raízes, ainda menos
Um calar de serenos
Desidratados, sublimes ossuários
Sem ossos;
A morte sem os mortos; a perfeita
Anulação do tempo em tempos vários,
Essa nudez, enfim, além dos corpos,
A modelar campinas no vazio

Da alma, que é apenas alma, e se dissolve.

domingo, 19 de maio de 2013

Para que servem os homens?


Foto: http://fotos.noticias.bol.uol.com.br
Texro: Célia Mota


Há quem diga que as mulheres já não precisam dos homens para mais nada. Eu discordo. Mesmo que estejamos conquistando cada vez mais espaço em um terreno que antes era exclusivamente masculino. Ainda que, cada vez mais presentes em todos os segmentos profissionais, mais eficazes, cuidadosas e delicadas, tenhamos preferência na seleção para determinadas ocupações - mesmo as que eram potencialmente masculinas -, ainda assim, o homem tem seu valor.
           
Nossa competência é inquestionável, sem dúvida, aprendemos a fazer com primor tudo que eles fazem. Trocamos nossos pneus, alimentamos toda a família, cuidamos dos filhos, da roupa, da limpeza do lar e ainda somos motoristas de ônibus, delegadas, advogadas, juízas, médicas, lutadoras de boxe e de vale-tudo, empresárias, cientistas, mecânicas, trapezistas, jornalistas, policiais, professoras de quase tudo... E não duvide, tem mulher comandando até mesmo o tráfico de drogas e também o de influências e favores.
           
A Argentina é governada por uma bela dama Cristina Kirchner, e aqui no Brasil já temos nossa presidente também. Então, para quê mesmo precisamos dos homens? Sexo e procriação? Pois eu respondo: Não pra isso.
           
Hoje em dia encontramos no Sex Shop – febre da modernidade- tudo que uma garota precisa para obter prazer sem complicações. Basta acionar o brinquedinho – que você escolhe no tamanho, modelo e cor de sua preferência - e deixar que a imaginação faça o resto. Alguns deles só faltam dizer eu te amo. Mas, se a comparação é com os homens, então não falta nada. E ainda tem a vantagem de eles – os vibradores - não dormirem depois do sexo, por isso não roncam, também não pedem uma cervejinha enquanto assistem ao futebol, não fumam para relaxar e nem saem com sua melhor amiga, a menos que você empreste. Esqueci-me de alguma coisa?
           
Ah sim, os filhos. Quase ia me esquecendo... Nós já podemos fazê-los sem a ajuda direta de nenhum macho alfa. Em plena época em que os avanços científicos não param! Basta uma inseminação artificial e, pronto, problema resolvido!!!
           
E sabe qual é a melhor parte? O filhinho chega e não traz consigo aqueles famosos incômodos que todas as mães solteiras ou divorciadas conhecem muito bem: Guarda compartilhada, pensão alimentícia, férias com a família do pai, e outros tantos... Se não se sabe quem é o doador do sêmen, não há com quem reclamar, mas também não é preciso ouvir aporrinhações, não é?
           
É por isso que eu digo: Homens se cuidem! Um dia conseguiremos abrir, sozinhas, uma lata de conserva, daí para perdermos o medo de trocar a lâmpada é um passo. E quando este dia chegar, já sabem, né? Bye bye queridos!

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A Proposta


Texto: Célia Mota

Tá tudo errado! Não temos que começar de onde paramos, ou tentar colar os pedaços de um amor que se partiu. Não temos que nos agarrar ao passado e esperar que tudo seja como antes. Não precisamos nos martirizar e nos torturar por algo que talvez esteja apenas evoluindo e mudando de forma.

Eu te proponho o novo, então. Que possamos nos conhecer como as novas pessoas que nos tornamos. Mais adultas e, talvez, mais sábias. Proponho que façamos as coisas com calma, bem devagar e sem pular etapas, para que possamos enxergar e perceber o outro como alguém especial. Que nos descubramos a cada dia um pouquinho e que a cada etapa nos surpreendamos com boas impressões. Ver o outro com novos olhos e perceber a beleza do sorriso, o brilho do olhar, as novas marcas de expressão e a sabedoria adquirida com elas. E que possamos apreciar isso também.

Minha proposta é nos apaixonarmos pelas pessoas em que nos transformamos. Acho que temos boas chances de nos darmos bem e, quem sabe, até nos amarmos como merecemos. Eu quero arriscar, e você?

E é por isso que hoje, nesse dia tão especial (dia dos namorados), quero pedi-lo em namoro. Vamos começar algo novo?
Espero que aceite o desafio.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Amor Platônico




Texto: Célia Mota

Ando estranha no último mês e tenho meus motivos. A casa do senhor Joaquim, do outro lado da rua, que já estava vazia há muito tempo, tem um novo morador.  E que morador! Desde que vi o vizinho pela primeira vez comecei a ter esses pensamentos malucos. No exato momento em que aquela criatura divina colocou os pés sobre o chão da minha rua, fui acometida de alucinações e devaneios.  Mas não é pra menos, ele possui uma beleza selvagem e delicada ao mesmo tempo, inexplicável! Certamente é a criatura mais encantadora que já vi.  Quando fala é como se ouvisse a mais bela canção, paro o que estiver fazendo só para ouvi-lo.  Até o nome dele é angelical: Muriel!

O fato é que desde a mudança daquele deus para o bairro, vivo no mundo da lua. Na escola, não tenho mais concentração para os livros ou professores, só consigo pensar em qual a sua cor preferida, que perfume usa , no que pensa – ou em quem... será que ele pensa em mim? A ideia me excita e faz meu coração acelerar. Quando, finalmente, resolvo escrever algo nos cadernos são nossas iniciais, L&M, entrelaçadas dentro de um coração. Luana e Muriel!!!

Realmente, é difícil acreditar que Deus tenha caprichado tanto em uma única obra. Muriel é lindo, educado, atencioso, enfim... tem todas as qualidades que procuro. Isso já está se tornando obsessão. Minha rotina já se resume em acordar antes dele, para vê-lo saindo para a faculdade e voltar da escola mais cedo, só para estar por ali, casualmente, quando ele chega. Esse é o melhor momento do meu dia, quando vejo aquele sorriso perfeito  e ouço “OI”. Fico paralisada e nem respondo. Vai que a voz falha, não posso  correr o risco!

É o meu primeiro amor e, apesar de ter somente dezesseis anos, sei que será o único.  Nunca sentirei algo parecido por outra pessoa. Nem mesmo entendo que sentimento é esse que dispara o coração, esfria as mãos e toma todos os pensamentos do dia. Que momento, que atinge a perfeição em apenas dois minutos preenchidos com um oi e um sorriso? Muriel, o mais lindo dos seres sobre a terra, tornou-se a motivação que me tira da cama todas as manhãs, faz esperar ansiosa por aqueles dois minutos no meio do dia e me arrasta para o sono mais cedo com a expectativa de que um novo amanhecer chegue mais rápido e com ele a doce rotina. É amor e é eterno, com certeza.