quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ode ao fracasso


Texto: Célia Mota

Todo dia de manhã ela sente vontade de chorar.
Assim, do nada, a tristeza chega humilde e vai se avolumando até tomar conta do quarto, do apartamento, do prédio todo.

Então ela abraça o travesseiro e chora, pois nesses dias é impossível sair da cama.
O silêncio insuportável grita em sua mente e ecoa nas paredes.

Quando ela olha para trás, e para os lados, percebe que seu mundo é solidão, que passou a maior parte da vida procurando a “outra metade” sem nunca se dar conta de que talvez já seja completa em si mesma.

E é só esse vazio, mais nada.
Já disseram que você possui todas as ferramentas de que precisa, e o amor que lhe falta está dentro de si ?
Ela tem procurado por ele e simplesmente não encontrou.

As pessoas são apenas os outros, não estão nem aí para os seus problemas. Não entendem, só querem se livrar dessa sua tristeza, então oferecem mais pílulas, mais médicos...

Eles nunca sentiram sua dor e, mesmo assim, julgam ,  criticam e  escondem os próprios defeitos atrás de um tecido tão fino e transparente que só serve para cobrir suas conveniências... 
hipócritas!

Ela se enrola em seu cobertor e foge do frio lá fora,
dos olhares de reprovação e das cobranças. Assim, por um breve instante, vislumbra a mente quieta, o coração tranquilo e o sangue vermelho colorindo os lençóis alvejados...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Tatuagem


Texto: Célia Mota


Um risco,
Uma cor,
Um rabisco,
 uma linha,
uma flor,
uma letra.
A mensagem,
um protesto,
um símbolo,
um poema,
uma coxa,
um ombro,
um jeitinho,
um emblema,
um direito,
 uma escolha,
uma tela em branco,
um corpo,
um efeito,
uma obra de arte!
O que eu quero ser.
Liberdade...
Uma marca,
um marco
Minha identidade!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Metamorfose

I

Texto: Célia Mota

              -Veja, é uma mulher?
             - Não. Apenas uma lagarta feia e desengonçada, suprimida, e encasulada pelo preconceito. Não tem respeito, sequer!

             - Espera, algo está acontecendo... Repare!
             - Sim, percebo agora. Ela tem lindas asas, coloridas, exuberantes e não há nada que se compare!

            - Cresceram quando ela decidiu se abrir para o mundo e mostrar sua verdadeira forma.
             - Valente! Quebrou a casca e voou até o outro lado do jardim sob os olhos deslumbrados da ignorância. Promoveu sua própria reforma!

             - E sua beleza é tão radiante e grandiosa que acabou por cegar a inveja e calar a censura.
             - Mas não se iluda!
Nada é tão fácil, ou rápido. A noite ela vai sentir calafrios, medo e insegurança. E com a solidão, vai faltar carinho, ternura!

             - Eu sei. A transformação é dolorosa, como todas são.
            - O voo?
             - Curto demais. 
No entanto, nada poderia ser tão grandioso quanto à ascensão!
O levante do suprimido, que não voltará a baixar a cabeça, jamais!

A coragem da iniciativa,  
o sucesso e a força deste movimento solitário
causarão em milhares de tímidas lagartas 
um sentimento de liberdade cativa...
a imensa vontade de metamorfosear... abrir as asas, alçar voo!
Partir, deixando para trás a inveja,
medo e autoritarismo arbitrários.

             - Ela semeia consciência a cada batida de asas! 
Agora todas as lagartas sabem que rastejar é apenas condição para voar, 
ganhar o céu,
virar arco Iris, 
com direito a tantas cores profundas e rasas!

Parece mentira, mas, hoje uma pequena e envergonhada lagartinha 
abriu caminho e  foi do chão ao céu! 
Explodiu a beleza, conquistou respeito!
Outras foram se aproximando, e de repente,
Ela não estava mais sozinha!

             - Houve deslumbramento e alegria!
Assim...
 borboleta inspirou a mulher,
outra lagarta que também não mais quer rastejar
ou se esconder no casulo por medo da dor.
Ela quer o céu e o que com ele vier!
Quer  ser respeitada, quer amor!

Por mais assustadoras que sejam as mudanças,
Ela as aceita!
E quanto mais aceitação, mais mudanças.
E quanto mais mudança, mais beleza!
E quanto mais beleza, menos lagartas...
E mais borboletas!
E quanto mais borboletas,
Menos aspereza.


Pois, borboletas, como sonhos,
Cometas, estrelas cadentes...
embelezam o mundo por um tempo,
cumprem seu ciclo e,
não mais que de repente:
desaparecem.

Fugaz e instável... mas não importa.
Compensa cada minuto que leva
para aceitar sua essência,
abrir uma a uma
cada porta.
Para eternizar a beleza dos gestos,
Imprimir a sabedoria da vivência.

E o sorriso de contentamento implícito
na metamorfose de cada personalidade,
no desabrochar das novas ideias
e na conquista da liberdade
Sempre vai superar o medo!