Texto: Célia Mota
-Veja, é uma mulher?
-
Não. Apenas uma lagarta feia e desengonçada, suprimida, e encasulada pelo
preconceito. Não tem respeito, sequer!
-
Espera, algo está acontecendo... Repare!
-
Sim, percebo agora. Ela tem lindas asas, coloridas, exuberantes e não há
nada que se compare!
- Cresceram quando ela decidiu se abrir para o mundo e mostrar sua verdadeira
forma.
- Valente! Quebrou a casca e voou até o outro lado do jardim sob os olhos deslumbrados da ignorância. Promoveu sua própria reforma!
- Valente! Quebrou a casca e voou até o outro lado do jardim sob os olhos deslumbrados da ignorância. Promoveu sua própria reforma!
- E sua beleza é tão radiante e grandiosa que acabou por cegar a inveja e calar a censura.
- Mas não se iluda!
Nada é tão fácil, ou rápido. A noite
ela vai sentir calafrios, medo e insegurança. E com a solidão, vai faltar
carinho, ternura!
- Eu sei. A transformação é dolorosa, como todas são.
- O voo?
- Curto demais.
No entanto, nada poderia ser tão
grandioso quanto à ascensão!
O levante do suprimido, que não voltará
a baixar a cabeça, jamais!
A coragem da iniciativa,
o sucesso e a força deste movimento
solitário
causarão em milhares de tímidas
lagartas
um sentimento de liberdade cativa...
a imensa vontade de
metamorfosear... abrir as asas, alçar voo!
Partir, deixando para trás a inveja,
medo e autoritarismo arbitrários.
- Ela semeia consciência a cada batida de asas!
Agora todas as lagartas sabem que rastejar é
apenas condição para voar,
ganhar o céu,
virar arco Iris,
com direito a tantas cores profundas e
rasas!
Parece mentira, mas, hoje uma pequena e envergonhada lagartinha
abriu caminho e foi do chão ao
céu!
Explodiu a beleza, conquistou respeito!
Outras foram se aproximando, e de
repente,
Ela não estava mais sozinha!
- Houve deslumbramento e alegria!
Assim...
borboleta inspirou a
mulher,
outra lagarta que também não mais quer rastejar
outra lagarta que também não mais quer rastejar
ou se esconder no casulo por medo da
dor.
Ela quer o céu e o que com ele vier!
Quer
ser respeitada, quer amor!
Por mais assustadoras que sejam as
mudanças,
Ela as aceita!
E quanto mais aceitação, mais mudanças.
E quanto mais mudança, mais beleza!
E quanto mais beleza, menos lagartas...
E mais borboletas!
E quanto mais borboletas,
Menos aspereza.
Pois, borboletas, como sonhos,
Cometas, estrelas cadentes...
embelezam o mundo por um tempo,
cumprem seu ciclo e,
não mais que de repente:
desaparecem.
Fugaz e instável... mas não
importa.
Compensa cada minuto que leva
para aceitar sua essência,
abrir uma a uma
cada porta.
Para eternizar a beleza dos gestos,
Imprimir a sabedoria da vivência.
E o sorriso de contentamento implícito
na metamorfose de cada personalidade,
no desabrochar das novas ideias
e na conquista da liberdade
Sempre vai superar o medo!

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