sexta-feira, 14 de junho de 2013

Metamorfose

I

Texto: Célia Mota

              -Veja, é uma mulher?
             - Não. Apenas uma lagarta feia e desengonçada, suprimida, e encasulada pelo preconceito. Não tem respeito, sequer!

             - Espera, algo está acontecendo... Repare!
             - Sim, percebo agora. Ela tem lindas asas, coloridas, exuberantes e não há nada que se compare!

            - Cresceram quando ela decidiu se abrir para o mundo e mostrar sua verdadeira forma.
             - Valente! Quebrou a casca e voou até o outro lado do jardim sob os olhos deslumbrados da ignorância. Promoveu sua própria reforma!

             - E sua beleza é tão radiante e grandiosa que acabou por cegar a inveja e calar a censura.
             - Mas não se iluda!
Nada é tão fácil, ou rápido. A noite ela vai sentir calafrios, medo e insegurança. E com a solidão, vai faltar carinho, ternura!

             - Eu sei. A transformação é dolorosa, como todas são.
            - O voo?
             - Curto demais. 
No entanto, nada poderia ser tão grandioso quanto à ascensão!
O levante do suprimido, que não voltará a baixar a cabeça, jamais!

A coragem da iniciativa,  
o sucesso e a força deste movimento solitário
causarão em milhares de tímidas lagartas 
um sentimento de liberdade cativa...
a imensa vontade de metamorfosear... abrir as asas, alçar voo!
Partir, deixando para trás a inveja,
medo e autoritarismo arbitrários.

             - Ela semeia consciência a cada batida de asas! 
Agora todas as lagartas sabem que rastejar é apenas condição para voar, 
ganhar o céu,
virar arco Iris, 
com direito a tantas cores profundas e rasas!

Parece mentira, mas, hoje uma pequena e envergonhada lagartinha 
abriu caminho e  foi do chão ao céu! 
Explodiu a beleza, conquistou respeito!
Outras foram se aproximando, e de repente,
Ela não estava mais sozinha!

             - Houve deslumbramento e alegria!
Assim...
 borboleta inspirou a mulher,
outra lagarta que também não mais quer rastejar
ou se esconder no casulo por medo da dor.
Ela quer o céu e o que com ele vier!
Quer  ser respeitada, quer amor!

Por mais assustadoras que sejam as mudanças,
Ela as aceita!
E quanto mais aceitação, mais mudanças.
E quanto mais mudança, mais beleza!
E quanto mais beleza, menos lagartas...
E mais borboletas!
E quanto mais borboletas,
Menos aspereza.


Pois, borboletas, como sonhos,
Cometas, estrelas cadentes...
embelezam o mundo por um tempo,
cumprem seu ciclo e,
não mais que de repente:
desaparecem.

Fugaz e instável... mas não importa.
Compensa cada minuto que leva
para aceitar sua essência,
abrir uma a uma
cada porta.
Para eternizar a beleza dos gestos,
Imprimir a sabedoria da vivência.

E o sorriso de contentamento implícito
na metamorfose de cada personalidade,
no desabrochar das novas ideias
e na conquista da liberdade
Sempre vai superar o medo!




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