sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eu sou

Imagem: Católicos Ribeirão Preto


Eu sou, mas o que eu sou quem cuida ou sabe?
Em meus amigos um lembrar perdido.
Gastar as minhas mágoas a mim cabe -
erguem-se e passam num revoar esquecido,
sombras de amor que a própria ânsia esmaga -
mas sou, e vivo - como névoa vaga


lançada ao nada de uma vácua lida,
ao vivo mar dos sonhos acordados,
onde não há qualquer senso da vida,
mas o naufrágio só dos bens passados.
Até os mais caros, meu amor mais fundo,
estranhos me são, ou mais que todo o mundo.


Anseio terras que ninguém pisou,
onde mulher nunca sorriu nem chora,
e onde me unir ao Deus que me criou,
para dormir como na infância outrora -
sem que nenhum cuidado seja meu:
erva por baixo, e acima o curvo céu.


John Clare
(in «Poesia de 26 Séculos»
Antologia, tradução, prefáio
e notas de Jorge de Sena,
Edições ASA, 2001)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Eu


(Livro de Mágoas – Florbela Espanca)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho,
E desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida.
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto, sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Vaidade


(Poesia do livro de Mágoas – Florbela Espanca)

Sonho que sou poetisa eleita. 
Aquela que diz tudo e tudo sabe. 
Que tem a inspiração pura e perfeita. 
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade,
para encher todo o mundo!
E que deleita mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou alguém, cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
e quando mais no alto ando voando,
acordo do meu sonho...
e não sou nada!...


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Biografia de Florbela Espanca



Á partir de hoje, pretendo dividir o espaço no meu blog com outros poetas, bem mais competentes do que eu,  e acredito que assim estarei enriquecendo o conteúdo para o leitor. Apresento uma das minhas poetisas preferidas: Florbela Espanca!

Ela é profunda, visceral e contagiante, você vai ver.

Todas as informações aqui contidas foram extraídas do e-biografias : http://www.e-biografias.net/florbela_espanca/

 Nasceu em 1894 e faleceu em 1930, aos 36 anos. Poetisa portuguesa, ela escreveu sonetos e contos de grande valor na literatura daquele país, também foi uma das feministas precursoras de Portugal. Sua poesia é conhecida pelo forte teor emocional, “onde o sofrimento, a solidão, e o desencanto estão aliados ao desejo de ser feliz”.
 Casou-se com com um colega de escola, Alberto Moutinho, em 1913. Nessa mesma época conheceu outros poetas e participou de um grupo de mulheres escritoras. Foi primeira mulher a ingressar no curso de Direito da Universidade de Lisboa, em 1917.
Em 1919, lançou “Livro de Mágoas”. Parte de sua inspiração veio de sua vida tumultuada, inquieta e sofrida pela rejeição do pai. Nessa época começa a apresentar um desequilíbrio emocional. Sofre um aborto espontâneo, que a deixa doente por um longo período. Em 1921, divorcia-se de Alberto e casa-se com o oficial de artilharia António Guimarães. Em 1923 publica “Livro de Sóror Saudade”. Nesse mesmo ano, sofre novo aborto e separa-se do marido. Em 1925, casa-se com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Em 1927, sua vida é marcada pela morte do irmão, em um acidente de avião, fato que a levou a tentar o suicídio. A morte precoce do irmão lhe inspirou a escrever “As Máscaras do Destino”.
A poesia de Florbela Espanca é caracterizada por um forte teor confessional. A poetisa não se sentia atraída por causas sociais, preferindo exprimir em seus poemas os acontecimentos que diziam respeito à sua condição sentimental. Não fez parte de nenhum movimento literário, embora seu estilo lembrasse muito os poetas românticos.
Florbela Espanca morreu em decorrência de suicídio por barbitúricos, no dia 8 de dezembro de 1930, às vésperas da publicação de sua obra prima “Charneca em Flor”, que só foi publicada em janeiro de 1931.



 


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Quando só resta tristeza


Texto: Célia Mota

Quando penso no que poderia ter vivido ao seu lado, tudo que queria ter dito e não pude naquele momento, tantas vezes pensei em acariciar seus cabelos, pegar sua mão, beijar seus lábios... Mas a mágoa estava entalada na garganta, sufocando o amor que eu sentia, matando meus sonhos.

É mesmo uma pena que nada disso tenha acontecido. Eu penso em como teria sido mágico o meu mundo com você nele, abrindo sorrisos e despertando suspiros... E agora não há mais tempo, pois a tristeza bate em minha porta e confesso estar disposta a deixá-la entrar de vez.

Aquela felicidade não foi mais forte que o orgulho e eu não pude te dar outra chance. Não acreditei no amor que tudo supera quando, naquele momento, a única força dentro de mim era a dor, que pulsava no ritmo do meu coração, e a decepção. Mas não deixo de pensar no que poderia ter sido...

Quem sabe um dia, amor, em outra vida, a gente possa acertar nossas frustrações e viver tudo o que foi deixado de lado. Mas hoje a tristeza bate a minha porta, meu compromisso é com ela. E nós sabemos que a felicidade nunca é tão forte quanto o orgulho e dificilmente supera um coração partido pela decepção.

Sinto muito, meu amor, mas é tarde demais para nós dois.
Quem sabe em outra vida?

Hoje meu compromisso é com a tristeza.