Texto: Célia Mota
Ando estranha no último mês e tenho meus motivos. A casa do
senhor Joaquim, do outro lado da rua, que já estava vazia há muito tempo, tem
um novo morador. E que morador! Desde que
vi o vizinho pela primeira vez comecei a ter esses pensamentos malucos. No
exato momento em que aquela criatura divina colocou os pés sobre o chão da
minha rua, fui acometida de alucinações e devaneios. Mas não é pra menos, ele possui uma beleza
selvagem e delicada ao mesmo tempo, inexplicável! Certamente é a criatura mais
encantadora que já vi. Quando fala é
como se ouvisse a mais bela canção, paro o que estiver fazendo só para ouvi-lo.
Até o nome dele é angelical: Muriel!
O fato é que desde a mudança daquele deus para o bairro, vivo
no mundo da lua. Na escola, não tenho mais concentração para os livros ou
professores, só consigo pensar em qual a sua cor preferida, que perfume usa , no
que pensa – ou em quem... será que ele pensa em mim? A ideia me excita e faz meu
coração acelerar. Quando, finalmente, resolvo escrever algo nos cadernos são
nossas iniciais, L&M, entrelaçadas dentro de um coração. Luana e Muriel!!!
Realmente, é difícil acreditar que Deus tenha caprichado
tanto em uma única obra. Muriel é lindo, educado, atencioso, enfim... tem todas
as qualidades que procuro. Isso já está se tornando obsessão. Minha rotina já
se resume em acordar antes dele, para vê-lo saindo para a faculdade e voltar da
escola mais cedo, só para estar por ali, casualmente, quando ele chega. Esse é
o melhor momento do meu dia, quando vejo aquele sorriso perfeito e ouço “OI”. Fico paralisada e nem respondo.
Vai que a voz falha, não posso correr o
risco!
É o meu primeiro amor e, apesar de ter somente dezesseis
anos, sei que será o único. Nunca
sentirei algo parecido por outra pessoa. Nem mesmo entendo que sentimento é
esse que dispara o coração, esfria as mãos e toma todos os pensamentos do dia.
Que momento, que atinge a perfeição em apenas dois minutos preenchidos
com um oi e um sorriso? Muriel, o mais lindo dos seres sobre a terra, tornou-se
a motivação que me tira da cama todas as manhãs, faz esperar ansiosa por aqueles
dois minutos no meio do dia e me arrasta para o sono mais cedo com a
expectativa de que um novo amanhecer chegue mais rápido e com ele a doce rotina. É amor
e é eterno, com certeza.

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